O ex-Beatle desce do pedestal, rasga os véus da idealização e entrega sua alma em um álbum brutal e essencialmente raw.
Em 1970, o mundo da música ainda estava tonto com o fim dos Beatles, e John Lennon, um dos maiores ícones daquela era, decidiu quebrar de vez os espelhos de sua própria mitologia. O álbum John Lennon/Plastic Ono Band, lançado no final daquele ano, não é um disco de estreia solo comum; é um exorcismo pessoal, uma sessão de terapia intensiva gravada e distribuída em vinil. A proposta era radical: despir a música de qualquer ornamento psicodélico ou orquestração à la Phil Spector, e focar na verdade crua e doída.
Este disco está diretamente ligado à Terapia Primal, um tratamento psicológico revolucionário conduzido pelo Dr. Arthur Janov, que John e Yoko Ono haviam acabado de concluir. A técnica, focada em reviver e expressar as dores primárias da infância, influenciou cada acorde e cada verso. O resultado é um mergulho corajoso em temas como abandono parental, dor de classe e a busca por identidade, algo raramente visto com tanta honestidade no cenário pop-rock da época.
A sonoridade é o ponto chave: minimalista e despojada. John Lennon, o autor de todas as faixas, optou por uma formação espartana para a Plastic Ono Band: apenas ele (nos vocais, guitarras e piano), o baterista Ringo Starr e o baixista Klaus Voormann. Essa estrutura de trio, com a ocasional adição do piano de Billy Preston ou Phil Spector, amplifica a sensação de vulnerabilidade e urgência. É o famoso less is more levado ao extremo emocional.
A faixa de abertura, "Mother", sozinha já justifica a existência e a reputação do álbum. Começando com o som soturno de um sino fúnebre, a canção é a mais pura forma de catarse musical. Lennon, em seu piano, entrega uma performance vocal que varia da tristeza resignada a um desespero crescente, culminando nos famosos gritos primais da Terapia Primal no fade-out. É uma confissão dolorosa sobre o abandono pelos pais na infância, transformando uma tragédia pessoal em uma obra-prima universal sobre a necessidade de se libertar de velhos traumas para seguir em frente, estabelecendo imediatamente o tom de honestidade brutal que permeia todo o trabalho. Já "Working Class Hero" é uma balada folk que, com sua honestidade lírica brutal, denuncia a repressão social e a hipocrisia das classes, servindo como uma espécie de hino de desilusão para a geração pós-utopia dos anos sessenta.
Outra canção fundamental é "God". Ela funciona como o clímax ideológico do disco, uma lista de ídolos e conceitos que John não acredita mais, desde figuras religiosas até Bob Dylan e, chocantemente, os Beatles. O verso "I just believe in me, Yoko and me" é o atestado de óbito de sua antiga vida e o nascimento de um novo eu, mais focado e autossuficiente. Foi um momento de iconoclastia chocante para os fãs da banda.
Sua produção, embora crua, foi co-conduzida por John, Yoko e Phil Spector. Surpreendentemente, Spector, conhecido por sua "Parede de Som" (wall of sound) orquestral, concordou em manter a produção esquelética, preservando a intensidade do material. O disco foi gravado nos estúdios Abbey Road e é frequentemente aclamado pela crítica, sendo considerado por muitos o melhor trabalho solo de John Lennon.
A Plastic Ono Band, o grupo que empresta o nome ao título, era, na verdade, um conceito aberto. Lennon e Yoko definiam-na como um coletivo conceitual, com membros flutuantes que, para este álbum, solidificaram-se na já mencionada power-trio. A capa, quase idêntica à de Yoko Ono/Plastic Ono Band, mostra o casal deitado em um gramado, numa simplicidade que espelha a honestidade nua e crua do conteúdo musical.
Este álbum é um marco histórico não apenas para Lennon, mas para a história do rock. Ele ditou o tom para o gênero singer-songwriter confessional que dominaria a década de 70 e provou que o rock, despojado de seus excessos, poderia ser um veículo poderoso para a catarse e a introspecção profunda. É a voz de John, sem filtros e sem fantasia, um grito de liberdade pessoal que ressoou por gerações.
Ficha Técnica
Autor: John Lennon / Plastic Ono Band
Ano de lançamento: 1970
Produtor: John Lennon, Yoko Ono e Phil Spector
Gravadora: Apple Records
Tracklist
01- Mother (John Lennon)
02- Hold On (John Lennon)
03- I Found Out (John Lennon)
04- Working Class Hero (John Lennon)
05- Isolation (John Lennon)
06- Remember (John Lennon)
07- Love (John Lennon)
08- Well Well Well (John Lennon)
09- Look at Me (John Lennon)
10- God (John Lennon)
11- My Mummy's Dead (John Lennon)












