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Ronnie Von - Ronnie Von (1969)

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A ousada guinada do Príncipe em direção ao rock progressivo brasileiro

Em 1969, quando o Brasil ainda tentava encontrar seu ritmo entre o aperto da ditadura e a onda global da contracultura, o 'Pequeno Príncipe' da televisão, Ronnie Von, estava pronto para trocar a coroa pelo turbante. Longe da efervescência inocente do iê-iê-iê que o projetou, ele lança este álbum homônimo (frequentemente citado como o seu disco mais "psicodélico"), um trabalho que é puro atrevimento. O LP marca uma guinada radical rumo ao rock psicodélico e progressivo, provando que o artista estava muito mais alinhado com o underground do que com os hits radiofônicos previsíveis, sintonizando o som brasileiro com o que se fazia de mais experimental lá fora.

Este quinto trabalho em sua discografia é o resultado de uma busca por amadurecimento artístico após o sucesso estrondoso de canções anteriores. O álbum tem uma estética sonora complexa e densa. Sai o romantismo direto e entram temas como crítica social, introspecção e a sensação de ruptura, tudo envolto em uma névoa orquestral e fuzz. A influência da contracultura e do movimento hippie é sentida nas letras que questionam o status quo e chamam à reflexão, uma ousadia notável para um ídolo pop da época.

O coração do álbum reside na intensa colaboração com o compositor Arnaldo Saccomani, que assina grande parte das canções, injetando uma dose de drama e melancolia progressiva. "Espelhos Quebrados" é um dos picos da obra, onde a densidade das cordas, a cargo do maestro, cria uma atmosfera sombria, comparada por alguns críticos à ambiência de "Eleanor Rigby", dos Beatles. Outra joia é a ácida "Anarquia", que, em um momento de repressão, convocava a juventude para a manifestação pacífica no clima paz e amor.

O time de bastidores é o responsável por essa guinada estética. A produção geral ficou nas mãos de Manoel Barenbein, um nome importante da gravadora Polydor, que deu a Ronnie a liberdade criativa necessária para explorar novos caminhos. A alma dos arranjos, no entanto, é do maestro Damiano Cozzella, que usa cordas, metais e percussão de forma atípica para o pop, adicionando peso e experimentalismo erudito às composições.

Este álbum de 1969 é a peça exata de transição para o trabalho que Ronnie faria no ano seguinte, "A Máquina Voadora", onde ele se juntaria a Rogério Duprat e Arnaldo Baptista (dos Mutantes). O disco homônimo, portanto, é o momento em que Ronnie Von estava desenvolvendo sua própria psicodelia paulistana, antes de se aliar diretamente aos principais nomes do Tropicalismo mais radical, mostrando que o ímpeto vanguardista já vinha de dentro.

Embora o disco não tenha alcançado o sucesso comercial de seus trabalhos mais leves, sua relevância cultural é inegável. Seus números de vendagem foram modestos na época, mas faixas como "Sílvia: 20 Horas, Domingo" ainda tiveram alguma execução nas rádios. O trabalho, contudo, foi resgatado e é hoje considerado um álbum essencial e um marco na história do rock psicodélico brasileiro, sendo frequentemente reeditado e redescoberto por novas gerações de ouvintes e colecionadores.

Tecnicamente, a gravação é um banquete de recursos gramaticais da música pop de vanguarda. Há modulações harmônicas surpreendentes e um uso inteligente de efeitos de estúdio. A canção "Contudo, Todavia" demonstra essa ousadia ao terminar de forma inesperada com o som de uma marcha marcial, enquanto "Canto de Despedida" encerra o álbum em clima de carnaval. A complexidade é garantida pelos músicos de estúdio, figuras centrais da cena instrumental paulistana da época, liderados por Cozzella e Barenbein.

O disco de Ronnie Von de 1969 é a prova de que a profundidade e a subversão podiam andar juntas no pop nacional daquela era turbulenta. É uma peça de vanguarda que documenta o ano em que o Príncipe decidiu chutar o balde e mergulhar de cabeça no universo lisérgico e orquestral, deixando um legado de arranjos que são ensinamentos sobre como transformar o pop em arte conceitual.

Ficha Técnica
Autor: Ronnie Von
Ano de lançamento: 1969
Produtor: Manoel Barenbein
Gravadora: Polydor (PolyGram)

Tracklist
01- Meu Novo Cantar (Arnaldo Saccomani)
02- Chega de Tudo (Arnaldo Saccomani)
03- Espelhos Quebrados (Arnaldo Saccomani)
04- Sílvia: 20 Horas, Domingo (Tom Gomes / Luís Vagner)
05- Menina de Tranças (Hédys / Flávia)
06- Nada de Novo / Lábios que Beijei (João Magalhães / Eneyda / J. Cascata / Leonel Azevedo)
07- Esperança de Cantar (Eduardo Araújo / Chil Deberto)
08- Anarquia (Arnaldo Saccomani)
09- Mil Novecentos e Além (Arnaldo Saccomani)
10- Tristeza num Dia Alegre (Newton Siqueira Campos / Vicente Paula Sálvia)
11- Contudo, Todavia (João Magalhães / Eneyda)
12- Canto de Despedida (Arnaldo Saccomani)