A audácia de 1967 do Love: um álbum que exigia "voltar ao início" e entregava a canção de 19 minutos mais selvagem da história do rock.
Lançado em janeiro de 1967 pela gravadora Elektra Records, este trabalho é o segundo do grupo de Los Angeles e um manifesto de dualidade. O título, "Da Capo", uma expressão musical em italiano que significa "voltar ao início", ironicamente marca uma ruptura. O disco encapsula a transição sísmica do rock da costa oeste, pulando da energia crua do garage rock para a complexidade alucinada da psicodelia de longas sessões. Seu auge comercial foi discreto, atingindo a posição 80 na parada Billboard, mas seu impacto na criatividade da época foi estrondoso.
O núcleo do grupo, centrado na visão implacável do autor Arthur Lee, já havia recrutado novos membros para essa aventura sonora. O baterista Michael Stuart e o multi-instrumentista Alban "Snoopy" Pfisterer se juntaram à formação com Bryan MacLean, John Echols e Ken Forssi, injetando um novo fôlego instrumental. A produção, assinada por Jac Holzman (fundador da Elektra, um selo sinônimo de risco e vanguarda na época), incentivou a banda a ser, literalmente, duas bandas em um único LP.
O lado A é uma rajada de rock e pop folk com pitadas barrocas que mal te dão tempo para respirar. É aqui que encontramos "Seven and Seven Is", o motor mais potente do álbum. Composta por Arthur Lee, a faixa é uma explosão punk-proto-psicodélica que acelera e desacelera de maneira dramática, culminando em uma simulação de explosão atômica. Seu refrão viciante e sua fúria controlada a levaram a ser o single de maior sucesso da banda, alcançando a posição 33 no Hot 100 dos EUA.
O lado B, no entanto, é a antítese radical. A música é completamente dominada por uma única faixa: "Revelation". Com quase dezenove minutos (mais precisamente, 18:57), essa jam estendida é uma viagem sonora que mistura blues, jazz e improvisação psicodélica sem filtros. Foi uma jogada ousada e inédita, desafiando as convenções da indústria e os limites de um álbum pop da época, refletindo as experimentações viscerais dos shows ao vivo da banda.
Essa mudança abrupta é o grande tema do disco. Enquanto a primeira metade oferece pérolas pop como "She Comes in Colors" e "Orange Skies" (esta, composta por Bryan MacLean, mostrando a doçura folk que equilibrava a intensidade de Lee), a segunda metade, com "Revelation", demonstra a ambição de Lee em ser mais do que apenas um escritor de canções de três minutos. É nesse espaço que a bateria de Michael Stuart e o órgão de Pfisterer ganham a liberdade de explorar ritmos e texturas complexas.
A canção "The Castle" e a suave "¡Que Vida!" são outros exemplos de como a banda conseguia ser simultaneamente sombria e melódica. O estilo de Lee e companhia foi fundamental para preencher a lacuna entre o garage rock cru e a psicodelia orquestral que dominaria a cena de São Francisco nos anos seguintes. O disco é a prova de que a banda estava à frente de seu tempo, mas essa mesma genialidade volátil era difícil de ser enquadrada.
Apesar de seu sucesso comercial limitado, o trabalho se tornou um favorito dos críticos e influenciadores, estabelecendo o grupo como uma das formações mais importantes e subestimadas da era psicodélica. A inclusão de instrumentos como o cravo e elementos de sopro, tocados por Pfisterer, adicionou uma camada de sofisticação barroca ao som que já era visceral, um toque de ironia considerando a espontaneidade da faixa que encerra o LP.
Para quem busca entender a explosão de criatividade de 1967, este trabalho é um manual obrigatório. Ele não apenas entregou hits de rádio, mas também ousou questionar o formato do álbum, injetando uma dose de caos e liberdade que poucos se atreveram a fazer na época. É o som de uma banda que se recusa a ser rotulada, navegando entre o pop ensolarado e as profundezas alucinadas.
Ficha Técnica
Autor/banda: Love
Ano de lançamento: 1967
Produtor: Jac Holzman
Gravadora/Editora: Elektra Records
Tracklist
01- Stephanie Knows Who (Arthur Lee)
02- Orange Skies (Bryan MacLean)
03- ¡Que Vida! (Arthur Lee)
04- Seven and Seven Is (Arthur Lee)
05- The Castle (Arthur Lee)
06- She Comes in Colors (Arthur Lee)
07- Revelation (Arthur Lee, Bryan MacLean, John Echols, Ken Forssi, Michael Stuart)












