O Grito de Guerra Lo-Fi que Devolveu a Guitarra ao Centro do Universo Pop Em um 2001 pré-redes sociais, quando o rock parecia ter se afogado em neopunk melódico e nu metal, um quinteto de Nova York, formado por jovens elegantes e aparentemente entediados, jogou um balde de água gelada na cena musical: The Strokes lançou Is This It. O álbum de estreia do time composto por Julian Casablancas (vocal e compositor), Nick Valensi e Albert Hammond Jr. (guitarras), Nikolai Fraiture (baixo) e Fabrizio Moretti (bateria) não foi apenas um disco; foi um manifesto de atitude e uma aula de como soar incrivelmente cool sem esforço, injetando uma dose de charme despretensioso na música daquele novo milênio.
A cena musical estava sedenta por autenticidade e riffs de guitarra crua. Is This It chegou como um divisor de águas, o estopim para o chamado garage rock revival ou post-punk revival que dominaria a primeira metade dos anos 2000, abrindo caminho para bandas como Kings of Leon, Arctic Monkeys e, claro, The White Stripes. O som dos Strokes remetia diretamente à crueza setentista do The Velvet Underground e à energia direta do Ramones, mas com uma roupagem melancólica e moderna que ecoava a solidão e o cinismo da juventude urbana de Manhattan.
O cerne temático do álbum é a vida e os relacionamentos dos jovens nova-iorquinos, filtrados pela voz arrastada e cheia de eco de Casablancas. As letras exploram o tédio existencial, as conexões superficiais e a busca por sentido - daí a pergunta direta do título: "É isso?". Faixas como "The Modern Age" são verdadeiros desabafos sobre as esquisitices da vida contemporânea, enquanto canções como "Barely Legal" e "Alone, Together" tocam em temas de sexualidade com uma ambiguidade juvenil. Essa honestidade descompromissada, combinada com melodias pop viciantes, criou uma obra que se equilibra entre o "arty" e o acessível.
Por falar em som, a produção é uma lenda à parte. A banda, determinada a capturar uma sonoridade simples e lo-fi, rejeitou sessões iniciais com o aclamado Gil Norton (produtor do Pixies), pois acharam que o resultado estava "limpo e pretensioso demais". Eles voltaram para o Transporterraum, um estúdio de porão no East Village, e para o produtor Gordon Raphael. A ideia era fazer o disco soar como "uma banda do passado que viajou no tempo para fazer seu disco no futuro", gravando muitas faixas em apenas um take para preservar a "eficiência crua".
Os hits são a prova de que o minimalismo pode ser máximo. O álbum nos deu três singles icônicos: "Hard to Explain", com sua bateria processada que soa como uma "drum machine" primitiva; "Someday", com seus elementos rockabilly e as guitarras entrelaçadas de Valensi e Hammond Jr.; e a emblemática "Last Nite", talvez o hino máximo da banda, que curiosamente traz linhas de guitarra rítmica inspiradas em reggae, cortesia de Albert Hammond Jr. Já a faixa-título, "Is This It", é a tentativa dos Strokes de fazer uma balada, mostrando que a melancolia também cabe na festa.
Apesar da atitude relaxada, o álbum fez barulho comercial. Is This It atingiu o pico de número 2 no Reino Unido e o número 33 na concorrida Billboard 200 dos EUA, alcançando o status de platina em diversos países. Mais importante que os números, contudo, foi o hype imediato: a crítica especializada aclamou o trabalho. O Metacritic registrou uma pontuação de 91, com veículos como o NME o classificando como um dos melhores álbuns de estreia de guitarra em décadas, cimentando o legado da banda instantaneamente.
Uma bizarrice envolve as artes de capa. A foto da edição internacional, feita por Colin Lane, mostrava o quadril de sua namorada da época com uma luva de couro preta, sendo considerada sugestiva demais. Por isso, a capa foi trocada nos EUA por uma imagem psicodélica de rastros de partículas subatômicas! Outra polêmica se deu após os ataques de 11 de Setembro: a gravadora RCA Records atrasou o lançamento do CD americano e removeu a faixa "New York City Cops" - que continha o verso "New York City Cops, they ain't too smart" (Os Policiais de Nova York, eles não são muito espertos) - substituindo-a por "When It Started", por questões de sensibilidade.
Is This It é um marco. É um álbum que, com sua sonoridade suja, vocais saturados e a parceria essencial entre a banda, o produtor Gordon Raphael e o mentor JP Bowersock, não só redefiniu o que era ser uma banda de rock no novo século, como também provou que a preguiça (a atitude, não a execução) pode ser a coisa mais elegante e eletrizante do mundo. Ryan Gentles, que largou o emprego de booker para se tornar o empresário da banda, sabia o que estava fazendo. É, sem dúvida, um dos pilares do rock moderno.
Ficha Técnica
Autor/banda: The Strokes
Ano de lançamento: 2001
Produtor: Gordon Raphael
Gravadora/Editora: RCA Records / Rough Trade Records
Tracklist:
1. Is This It (Julian Casablancas)
2. The Modern Age (Julian Casablancas)
3. Soma (Julian Casablancas)
4. Barely Legal (Julian Casablancas)
5. Someday (Julian Casablancas)
6. Alone, Together (Julian Casablancas)
7. Last Nite (Julian Casablancas)
8. Hard to Explain (Julian Casablancas)
9. New York City Cops (Julian Casablancas)
10. Trying Your Luck (Julian Casablancas)
11. Take It or Leave It (Julian Casablancas)












